Como a repressão transforma o tráfico de drogas na indústria mais lucrativa do país
A guerra às drogas fracassou. E não apenas porque não elimina o tráfico, mas porque o financia. O Estado brasileiro gasta bilhões para combater um mercado que ele próprio mantém vivo, criando o risco, a escassez e o preço que tornam o crime rentável, sendo que a repressão atua, na prática, como o principal insumo da indústria do tráfico.
O Brasil vive uma guerra que nunca vence. A cada operação, helicópteros sobrevoam favelas, a televisão exibe pilhas de entorpecentes apreendidos e autoridades anunciam mais uma “grande vitória contra o crime”. Mas, fora das câmeras, o mercado clandestino reage como um organismo eficiente: reajusta rotas, redistribui perdas e eleva preços. No fim do dia, quem lucra com a repressão é o próprio traficante.
O tráfico de drogas funciona como uma indústria — complexa, hierarquizada e global. Há quem produza, quem transporte, quem lave o dinheiro e quem compre a omissão das autoridades. O que a diferencia de qualquer outro setor não é sua estrutura, mas a natureza do seu insumo principal: a proibição. É o Estado, com suas leis e sua repressão, que transforma um produto barato e abundante em uma mercadoria de alto valor.
A droga não é cara porque é rara; é cara porque é proibida. O risco é o que agrega preço. Um quilo de cocaína que custa pouco mais de mil dólares nas montanhas andinas pode valer cem vezes mais quando chega à Europa. Cada barreira policial, cada porto corrompido e cada suborno pago adicionam um novo degrau na escada do lucro. O consumidor não paga pela substância — paga pelo privilégio de tê-la conseguido.
A repressão, longe de desestruturar o mercado, o organiza. Elimina os pequenos, profissionaliza os grandes e concentra o poder nas mãos de quem tem capital para corromper, perder e recomeçar. O Estado acredita estar cortando a cabeça da serpente, mas apenas fortalece o corpo. O aparato policial age, sem perceber, como um órgão de regulação da economia criminal — criando barreiras de entrada e consolidando monopólios ilícitos.
O traficante, ao contrário do mito popular, não é um empreendedor brilhante. Ele não domina o produto, não entende de vendas e não investe em qualidade. O que o define é a habilidade de escapar. Sua mercadoria não é a droga, mas o acesso àquilo que o Estado proíbe. Ele lucra com o risco e vive da repressão que o alimenta. Quanto mais o Estado combate, mais caro se torna violá-lo.
As apreensões, celebradas como vitórias, são apenas custos operacionais. Enquanto a indústria legal paga impostos em dinheiro, o traficante paga em mercadoria perdida — e o impacto é mínimo. O custo de produção é baixo, a margem é gigantesca e, mesmo com perdas significativas, o negócio continua lucrativo. No fim, o empresário formal paga mais caro para obedecer à lei do que o traficante paga para burlá-la.
O que torna essa engrenagem ainda mais perversa é quem a financia. O crime não arca com o custo da repressão. Quem paga pela polícia, pelos presídios, pelos tribunais e pelos helicópteros é a sociedade. O contribuinte sustenta a estrutura que mantém o risco e o preço da droga altos. O Estado socializa o custo e privatiza o lucro.
A guerra às drogas é, portanto, o investimento público de pior retorno da história. O governo gasta bilhões todos os anos para manter de pé o mesmo mercado que diz combater. O tráfico se adapta, se reorganiza e volta mais forte — alimentado pela escassez que a própria repressão produz. Cada real aplicado no combate é um real injetado na valorização do produto proibido.
O resultado é um paradoxo perfeito: o Estado cria o risco, financia o combate e garante o lucro. O traficante precisa da polícia para justificar o preço de sua mercadoria, e a polícia precisa do tráfico para justificar sua existência e seus orçamentos. É uma simbiose disfarçada de guerra. Uma engrenagem onde o inimigo é indispensável.
Enquanto a sociedade acredita que financia segurança, continua pagando pelo funcionamento da indústria que afirma combater. O verdadeiro escândalo do tráfico não está nas favelas, nem nas fronteiras. Está no próprio modelo de repressão que, em nome da ordem, alimenta o caos.
Por: Thiago Roberto Coletto – Advogado